segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Simplicidade.
E então, quando você menos esperar, se encontrará conformado com as suas impossibilidades. Vai deixar de se questionar até que ponto todo sacrifício vale a pena. Vai se esquecer de perguntar, em silêncio, o que eu fiz pra merecer isso. Depois você vai simplesmente se automatizar no sentido de resolver as coisas e tornar tudo mais simples. É aí que mora o perigo. Um belo dia, o seu inconsciente toma a decisão de mergulhar na escravidão do tempo, da rotina e das obrigações. Dorme. Acorda. Come qualquer coisa. E rua: trânsito, fumaça. Relógio. Conversa sobre coisas mundanas. Com pessoas mundanas. Interesse. Desconfiança. Tragédia no jornal. Cansaço. Estafa. Prazos. Necessidade de sobrevivência. Cobranças, cobranças. Trânsito. Talvez uma academia próxima e toda a pressão de ser saudável, de ser impecável, de ser feliz. Suor. Mais cansaço. Casa, alívio. Chave na fechadura. Cachorro à sua espera: receptivo, sempre de braços abertos. Um sorriso natural, o primeiro do dia? A família se entreolha e faz um rapidíssimo retrospecto do dia. Todos cansados. Olhinhos pesados, corpos sem forças. Cama, mesa, banho. Amanhã tem mais. O fim de semana é a mansão das missões adiadas. É um casarão grande, bonito e abandonado porque o avô morreu, a avó mudou-se pra longe da tristeza. Os filhos não têm tempo ou disposição para ir até lá, dizem que é longe, que estão cansados. Os netos estão crescidos. Com as namoradas, as viagens e as festas da faculdade. (E eu já te disse: as metáforas são um excelente esconderijo.) Você está feliz porque vai encontrar os amigos que moram dentro de suas emoções e lembranças mais genuínas. Mas, ao chegar, o adjetivo mais usado para te caracterizar é sumido e você se sente distante das histórias, das piadas internas e até mesmo da maneira de falar uns com os outros; como se o carinho tivesse se dissipado e a magia estivesse guardada dentro de (um baú) nossa antiga unidade excêntrica. Às vezes passa e estamos novamente juntos, invasivamente juntos, como há tempos atrás, aqueles tempos inocentes, subentendidos de levezas fluidas. Mas às vezes não passa. E aí você vai pra casa pensando que talvez não devesse ter ido, perguntando por que insiste em certas coisas que pertencem somente ao coração de criança. Queria que estivesse chovendo, mas a meteorologia e meu estado de espírito nunca quiseram se conhecer. Na volta pra casa surge um comentário sobre as voltas, os rumos e os destinos, se é que existem. Estamos todos no mesmo lugar? Ou aquele mesmo lugar ainda existe em cada um de nós? Alguma das alternativas tem a obrigação de estar correta. As reflexões sobre as coisas sublimes consolam. Compensam uma semana, um mês, um ano de coisas mundanas. A rotina urbana tem essa capacidade de esvaziar sentidos. Somos todos suflês da mesma receita. Mas com propósitos distintos. E um dia você se cansa disso também. Deixa tentar encontrar um padrão nas determinações e felicidades daqueles seres constituídos pela mesma matéria orgânica. Talvez conclusões inatingíveis não mereçam nosso tempo precioso. Você está anestesiado, rendido, vendido aos tempos urbanos. Então desiste: entrega os pensamentos a uma música que te preenche. Pra mim um quarteto de cordas seria suficiente como prêmio de consolação. Mesmo na música popular. A clássica é a existência coesa em forma de som. Mas é justamente por isso que a popular me surpreende: está confesso o meu momento de evasão. Lá fora um casal caminha calmamente. Aproveitando a manhã de domingo. Cachorro deitado no chão da varanda... Ela gosta de sol e aproveita o silêncio para acompanhar com a cabeça todos os movimentos de uma borboleta. Simples isso. Queria escrever sobre a simplicidade da vida... Mas não enquanto não acreditar nela.
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